terça-feira, 12 de junho de 2012

492

O homem esvaziou o cinzeiro na lixeira sob a escrivaninha. Já havia algumas horas estava transbordando de bitucas e fitas entintadas. Era uma solução fictícia, entretanto - a lixeira, por sua vez, já derramava seu conteúdo pelo chão da sala.

Como se por despeito, acendeu outro cigarro. O contato da chama com o papel de seda produzia um som efervescente que seria quase imperceptível, não fosse o silêncio que dominava o recinto - mas o homem já o conhecia muito bem.

Olhou para a folha de papel na Olivetti à sua frente. As teclas da máquina já estavam gastas, a ponto de tornar impossível a leitura das letras, cuja tinta já havia sido perdida nos dedos do homem há algum tempo.

Na folha, apenas a marcação do número da página – 492 - e as mesmas palavras:

“abriu a porta do quarto e viu“

A textura do papel gramado parecia mover-se diante de seus olhos. Sua visão já não era a mesma. Tirou os olhos do papel e levantou-se da cadeira, pegando o copo de uísque no caminho.

Olhou à volta. O quarto estava vazio, a não ser pela escrivaninha em que esteve sentado. O papel de parede, num marrom doente, já começava a descascar nos cantos. A poeira do chão formava uma camada brilhante na luz do abajur.

Foi até a janela e olhou para fora. A escuridão era profunda, impenetrável. Esperou os olhos se acostumarem, mas a situação não se alterou. Respirou fundo. Estava cansado, definitivamente.

Não era a primeira vez que as idéias lhe faltavam. Escrevia desde uma época que não sabia definir com certeza, tamanha era sua distância do presente. Fez disso sua vida, seu único impulso. Escrever era para ele tão natural quanto respirar ou caminhar.

Tomou um gole do uísque, que parecia ainda pior que quando abriu a garrafa. Fez uma careta e virou o resto de um gole só. O álcool ajudava a inspiração – ou a libertava de suas correntes. Não fazia diferença, o resultado era o mesmo. Esmagou o resto do cigarro dentro do copo e o deixou apoiado no batente da janela.

Voltou para a escrivaninha e sentou-se. Olhou para o trabalho que já tinha produzido, num bloco de folhas assimetricamente empilhadas ao lado da máquina de escrever. Pegou a página no topo da pilha e olhou com tédio. Franziu o cenho e olhou novamente, depois virou a folha. Estava em branco.

Pegou a próxima folha e olhou. Estava em branco também. Repetiu a ação mais uma dúzia de vezes, depois pegou o bloco inteiro e folheou com agilidade. Estavam todas em branco.

Fechou os olhos e respirou fundo mais uma vez. Estou ficando velho, pensou. Abriu os olhos e, num lampejo de lucidez, olhou à volta a procura do trabalho das últimas semanas, sem sucesso. Abriu as gavetas, olhou sob a mesa e à volta. Nada.

Ninguém poderia ter mexido na mesa, refletiu. Já fazia algum tempo que não saía do quarto. Pensando melhor, não se lembrava de quando havia saído de lá pela última vez. Não foi ao banheiro, não comeu, não dormiu. Seu trabalho era sua existência.

Pegou a garrafa do scotch pela metade e bebeu da garrafa, três grandes goles. Levantou-se novamente. Não conseguia lembrar há quanto tempo estava acordado. Foi até a janela novamente e buscou um resquício de luz na rua, mas não o encontrou. Sentia-se estranhamente oprimido. Tentava, com todas as suas forças, resgatar alguma lembrança de sua vida, sua infância, amores perdidos, amarguras, felicidades passageiras e duradouras. Sua mente era como um buraco negro. Não conseguia elaborar pensamentos que ultrapassassem os limites das paredes do recinto em que se encontrava.

Começou a suar frio. Tentou abrir a janela, mas anos de sujeira e falta de uso foram mais fortes que os músculos dos seus braços. Precisava sair dali. A necessidade agora era uma urgência primitiva, um impulso quase animal. Correu desastrado em direção à saída.

Abriu a porta do quarto e viu – nada.

A mesma escuridão que dominava a janela dominava também as fronteiras de seu local de trabalho, seu mundo. O silêncio, de um abafado sufocante. Não sentia o deslocamento do ar entrando no quarto, não distingüia perspectiva no espaço, apenas um breu inconseqüente, sem início, sem fim, sem duração ou circunstância.


Fechou a porta. Permitiu-se parar por um momento. Respirou fundo, permitindo a entrada do ar poeirento do quarto em seus pulmões, já com a regularidade de sempre. Sorriu aliviado e voltou em passos curtos á escrivaninha. No caminho, olhou de relance para a janela, reconfortando-se com a escuridão do outro lado do vidro. Sentou-se, acendeu outro cigarro e arrancou a folha de papel da máquina de escrever, atirando-a na lixeira. Abriu a gaveta. Precisava de outra folha em branco.

domingo, 3 de junho de 2012

Os Três Porquinhos

Os Três Porquinhos é uma paródia da história original, de autoria de Hélio Barcellos Jr. e dirigida por Paulo Guerra. Foi montada originalmente nos anos 90.

Os irmãos Porcaria, Porqueira e Porcalhão mudam-se para Porco Alegre e são ameaçados pelo Lobo Mau, mas mostram que "a união faz a força" e dão a ele o que merece.

No elenco, Caio Prates, Cláudio Benevenga, Cristiano Godinho, Douglas Carvalho e Paulo Adriane.




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