sábado, 13 de dezembro de 2014

Hoje

Hoje entrei numas de otimismo.

Otimismo, mas daqueles de levar pra casa. O resto é peneirado na primeira esquina.

Otimismo vira-lata, provado a ferro e fogo pela sucessão de gerações. Hoje vale mais do que pesa, a gorjeta não é opcional.

Hoje olhei pra porta e vi que estava aberta.

Hoje o copo encheu por acaso e transbordou.

Hoje brinquei de índio com o porteiro. Ele não percebeu.

Hoje os olhos já não ardem com a urgência da noite.

Hoje o olfato vence a visão e ignora a audição. Hoje o sucrilho é pizza.

Hoje os morcegos da caixa da persiana ficaram quietos e me deixaram dormir.

Hoje a voz na minha cabeça morreu de fobia social. Ensaiou um solo e fracassou teatralmente.

Hoje os pássaros se cansaram de Vivaldi e decidiram atacar de David Gilmour.

Hoje é dia, amanhã também. Dia de quê? Sei lá.

Hoje os nervos são de aço inoxidável, os miolos fritos na manteiga.

Hoje o dia acordou igual, encoberto e com pauladas de chuva ocasionais. Amanhã sol às vezes. Depois de amanhã, verão. Sem mormaço.

Hoje foi assim, amanhã provavelmente não será.

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