quinta-feira, 11 de junho de 2015

Crítica de Antônio Hohlfeldt para Biafra

Jornal do Comércio, 12 de Junho de 2015

O INESPERADO ACONTECE

Em 2012, Cinthya Verri lançou um livro chamado Constantina, parece-me que de poemas. Depois, esteve no Programa do Jô e fez um enorme sucesso. Passou a fazer programas em rádio e televisão, colunas em jornal, com repercussão inclusive nacional. Na última semana, teve o romance Biafra - uma abordagem ficcional sobre o transtorno alimentar - ainda inédito em livro ou e-book - transformado e estreado enquanto peça teatral, sob a direção de Cristiano Godinho, em cartaz ainda nesta semana no Teatro de Arena, no alto do viaduto da Borges de Medeiros. Bom, as coisas começam a ficar interessantes e curiosas: não conheço o mencionado romance de Cinthya Verri, mas nem sempre o autor é o melhor adaptador de sua obra para uma outra linguagem. Observe o leitor: Cinthya estreou na poesia, escreveu um romance que ainda está inédito, mas prefere, em seguida, transformá-lo em texto dramático. Bem, o que conheço é este texto, mediado pela direção de Cristiano Godinho, o que resulta em um espetáculo teatral. Teatro não é trabalho de um só autor, como um livro de poemas ou de prosa.

Ora, se o espetáculo chegou a impressionar e a emocionar, isso significa: 1. O texto deve ser bom; 2. O diretor deve ser bom; 3. O intérprete, no caso uma atriz, deve ser boa. E me parece que foi isso que Godinho quis dizer ao fim do espetáculo, ante os aplausos entusiasmados do público, ao se referir ao trabalho enquanto um empreendimento de família. E não acho que ele estivesse se referindo a laços familiares, mas, sim, a um esforço comum, altamente identificado, entre todos os membros de uma equipe, o que redundou num resultado totalmente homogêneo, que passa pelos desenhos (imagino, a estas alturas, que sejam da própria Cinthya), transformados em pequeninos vídeos animados, que são peças interessantes em si mesmos, com certa autonomia em relação ao espetáculo; os figurinos de Thais Partichelli Biazus; a trilha sonora de Fernando Matos e da própria Cinthya Verri (que, aliás, também é intérprete, se é que não é compositora...); a iluminação de Marga Ferreira (ela está de volta!...) e a produção da autora e do diretor, além da extraordinária preparação corporal de Thaís Petzhold e os elementos cênicos de Carolina Falcão e Pablo Herzog. Por que nomear a todos? Porque é de justiça: sem a loucura de cada um deles, este espetáculo não existiria. Ele quebra todos os padrões e, ao mesmo tempo, evidencia referências absolutamente consolidadas.

Uma hora de duração. Ficamos sabendo que Biafra existiu e deixou de existir enquanto país. A gente descobre que Biafra é o nome da personagem, uma médica, quando adulta, apelidada pelo papai, quando criança, de Biafrinha... por sua magreza, e que ela adorou isso. Dedicou-se à busca da anorexia mais radical depois de ter sido gorda na passagem da infância para a adolescência. Transformou-se em médica; em algum momento de sua adolescência, a mãe abandonou marido, filho e ela mesma, Biafra, e então a gente se dá conta, e todo o texto ganha sentido: a metáfora de Biafra não é tanto a magreza física, mas é a incapacidade de amar, é a secura emocional que ela herdou e que a leva a desprezar o filho que descobre carregar no útero, até o momento em que, com 33 semanas de gestação, é obrigada a interromper o processo, sob pena de morrer. Ela decide não abandonar o filho, porque entende que eles formam uma unidade definitiva.

O texto só poderia ter sido escrito por uma médica de formação. Mas este texto só pode ser escrito por uma dramaturga por vocação. Estranho texto de amor, que só poderia ter sido escrito por uma mulher. O espetáculo revela um diretor que sabe trabalhar um ator. Gisela Sparremberger, a atriz, mostra uma dedicação e uma identificação raras e admirável. Ela é completa: na voz, no gestual, na performance. Por isso tudo, tudo deu certo. Só podia dar. É um trabalho absolutamente surpreendente e imperdível.

Por enquanto, o espetáculo do ano.

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